Nem o Jesus de Rodrigo Santoro salva da mediocridade esta nova versão de \"Ben-Hur\" (assista ao trailer acima), que estreia nesta quinta-feira (18). Em participação secundária, mas digna, o ator brasileiro é das raras coisas que saem com a reputação intacta de um filme que tem muito de novela bíblica e peca como cinema. Vale a mensagem político-cristã (\"tenha compaixão pelo próximo\", \"respeite as diferenças\"). Não vale o ingresso. São ao menos três limitações: roteiro, filmagem e um surto generalizado de falta de bom gosto.
Os produtores – e o diretor e o elenco – têm repetido: \"Isso não é um remake, mas, sim, uma releitura\". Não é modéstia. É autoconsciência, esperteza.
Querem evitar comparação com o famoso e bem-sucedido \"Ben-Hur\" (1959), uma das maiores superproduções de todos os tempos – e que tinha ali suas deficiências também. Custou US$ 15 milhões (muito, muito mesmo, naquele tempo) e ganhou 11 estatuetas no Oscar, recorde igualado só por \"Titanic\" (1997) e \"O senhor dos anéis – O retorno do rei\" (2003). A marca, definitivamente, não será batida por esta releitura, que teve o \"humilde\" orçamento de US$ 100 milhões (abaixo dos cerca de US$ 250 milhões de outros blockbusters contemporâneos).
\"Ben-Hur\" adapta o romance \"Ben-Hur: A tale of the Christ\", escrito por Lew Wallace e lançado em 1880.
E já houve outras produções inspiradas no livro: um curta-metragem de 1907, um filme mudo de 1925, um desenho animado de 2003 e uma minissérie para TV em 2010. Fica a dúvida: precisava de mais uma? Só Deus sabe por que resolveram se atrever...
Nos tempos de Cristo
A história é a do nobre judeu Judah Ben-Hur. Ele vive nos tempos de Cristo (um coadjuvante na trama) e cresce na Judeia ao lado do melhor amigo, Messala. No princípio, o Messala até parece ser boa gente, mas então ele acha certo trair todo mundo para se juntar ao Império Romano e depois voltar disposto a dominar geral.
Nessas, Ben-Hur vira escravo em um navio, apanha bastante (do roteirista, sobretudo). Mas ele escapa, torna-se piloto de biga (a carruagem romana) e vai disputar a Fórmula 1 dos tempos de Cristo. Tudo pretexto para dar uma lição no Messala.
No \"Ben-Hur\' de 1959, era a vingança que interessava. No \"Ben-Hur\" de 2016, é a jornada rumo ao perdão e à tolerância. O roteiro do novo é menos ingênuo e melhora aspectos francamente ridículos do anterior. Mas é pouca coisa.
Saem vingança e amor gay, entra o perdão
Tirando essa abordagem, o filme justifica pouco sua razão de ser, além da proposta de ser menos arrastado (são 124 minutos contra 212 minutos do anterior), menos teatral (o anterior é solene em cada diálogo e pose), mais realista, ter mais cenas de ação com cortes rápidos e de querer mostrar que os efeitos visuais evoluíram a ponto de você não precisar mais de 350 atores e milhares de figurantes (números reais). Facilidades da vida (digital) moderna.
Uma diferença básica: a estrela do filme de 60 anos atrás era Charlton Heston, ícone do estilo macho alfa no cinema e da falta de perspicácia (só ele não percebeu o lance gay insinuado entre o Ben-Hur e o Messala); e agora é o desconhecido britânico Jack Huston. No que depender de \"Ben-Hur\", não é agora que ele se tornará astro.
Outra coisa é que Jesus Cristo só aparecia de costas e sua voz não era ouvida. Desta vez, não: Rodrigo Santoro surge na figura de um messias \"gente como a gente\", faz até trabalhos de carpintaria.
O escritor Gore Vidal, que ajudou com o roteiro do \"Ben-Hur\" de 1959, dizia que escreveu o filme como um épico bíblico de amor homossexual entre Ben-Hur e Messala – e contou para todos os envolvidos, menos para o intolerante do Charlton Heston. Para Vidal, os dois personagens haviam tido um caso na adolescência. Como o protagonista não quis reatá-lo, Messala ficou bem bravo. No novo \"Ben-Hur\", não há essa sugestão de relação gay. É bromance.
Toby Kebbell, ator que vive o Messala atual, não é galã de maxilar bem desenhado e furinho no queixo como Stephen Boyd, o Messala de 1959. Mas dá conta de expressar a inveja e a raiva que o papel exige.
Pai, perdoa... o diretor
A sequência mais célebre de \"Ben-Hur\" era a da corrida das bigas. Muita ação e emoção. Revisto hoje em dia, aquele fast-foward para dar a impressão de que os cavalos estavam correndo muito provoca riso, ainda que respeitoso. Outros tempos.
A cena se repete no novo \"Ben-Hur\". O uso de efeitos, com investimento em 3D, talvez soe exagerado, mas não constrange, não. O diretor de origem cazaque Timur Bekmambetov (\"Abraham Lincoln: Caçador de vampiros\", \"O procurado\" e \"Guardiões da noite\") tem experiência em ação e fantasia. Seu currículo sugere que não dava para cobrar um novo clássico.
Mas é o momento da crucificação que parece ter provocado a maior emoção durante os trabalhos. Em recente passagem pelo Brasil para divulgar \"Ben-Hur\", Rodrigo Santoro se comoveu ao falar da filmagem. Disse que, no dia anterior, havia nevado na cidade italiana que serviu de cenário. Com pouca roupa, enfrentou o frio e fez Jack Huston soltar lágrimas de verdade, de acordo com o próprio.
Santoro vai bem ali, sem exagero. Fica a frase dita por Cristo: \"Perdoa-lhes, Pai, pois não sabem o que fazem\". Neste caso, fizeram um filme mediano sem saber.
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