Em 2003, o economista carioca Claudio Gandelman, de 43 anos, deixou um alto cargo numa empresa de internet para abrir seu próprio negócio digital. Sua aposta, o site de classificados Keero, até foi bem e ficou no ar até 2007. Mas não resistiu ao convite recebido por Gandelman para trabalhar numa corretora de investimentos. No novo emprego, ganharia mais do que com o portal a que se dedicava havia quatro anos. “Era um site à frente do seu tempo. Também faltou conhecimento para fazer direito”, diz. Há seis meses, a história se repetiu. Mais uma vez, Gandelman abriu mão da segurança de um emprego bem remunerado numa multinacional on-line para empreender. Ao explicar sua nova ideia, fala com confiança: “Montei algo mais sólido”. E ousado, bem ousado.
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Sua rede de blogs, a Teckler, foi lançada na semana passada simultaneamente em 165 países. Estreou com versões em 13 idiomas que abrangem, segundo as contas de Gandelman, um público de 4 bilhões de pessoas em todo o mundo. Trata-se de um feito raro entre as empresas digitais brasileiras. Normalmente, elas concentram esforços para dar certo no Brasil. Só depois pensam em expandir seu alcance e, mesmo assim, os primeiros mercados internacionais costumam ser os países vizinhos. “Somos a primeira empresa de internet global do Brasil”, diz Gandelman. Sua proposta é facilitar a produção e a divulgação de textos, fotos ou vídeos para os usuários de internet. “Blogar é difícil. Dois terços dos blogs do mundo estão inativos, e os 100 maiores concentram metade da audiência.” Na Teckler, levam-se apenas alguns minutos do registro à publicação do primeiro post. O site ainda pega emprestados elementos de redes sociais para incentivar a descoberta de conteúdos. Os membros acompanham, em seus perfis, as publicações uns dos outros e podem republicar o que encontraram de mais interessante, quando o autor permitir.
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Essa ideia é interessante, mas não exatamente nova. Seu mote, funcionamento e visual são bem semelhantes aos do portal Tumblr, o 32º endereço on-line mais visitado do mundo. A inovação da Teckler para enfrentar a concorrência é dar a maior parte do que ganhará com publicidade aos próprios autores do conteúdo. Um anúncio custará entre R$ 0,80 e R$ 30 a cada 1.000 visualizações da página em que a propaganda aparece. A empresa ficará com 30%. Os outros 70% vão para o dono do perfil. “Ninguém ficará rico. Mas hoje as pessoas não ganham nada com o que geram”, diz Gandelman. Redes como o Facebook faturam bilhões com o conteúdo que colocamos lá de graça. A Teckler dividirá parte do lucro com quem produz. Parece mais justo.
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O diretor do escritório de mídia digital Agência Click Isobar, Abel Reis, considera a Teckler promissora. “Une duas tendências: o conteúdo gerado pelo usuário e a divisão de receitas”, diz Reis. “Mas, para ter anunciantes, será necessário criar uma audiência qualificada.” Não será fácil. Além do Tumblr, o Teckler terá concorrência direta de outras redes de blogs, como Wordpress ou Blogger, e indireta, disputando pelo tempo que gastamos on-line com sites como Facebook, Instagram, Foursquare ou Twitter. Também concorre com o AdSense, serviço do Google que permite ao blogueiro ou autor de qualquer site reservar um espaço para anúncios. O Google escolhe um anúncio para aparecer ali e partilha com o autor cerca de um terço do faturamento.
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Na internet, não é necessário ser pioneiro para chegar à liderança. O Google não foi o primeiro buscador, nem o Facebook criou o conceito de rede social. Chegaram ao topo oferecendo alternativas melhores que as existentes. A Teckler terá de fazer o mesmo. Conta a seu favor ser uma startup, nome das pequenas empresas inovadoras que se tornaram marca do Vale do Silício, nos Estados Unidos. A estrutura enxuta lhe permitirá se mover mais rápido que a concorrência. Oito pessoas de áreas como marketing, finanças e design compartilham um escritório em Ipanema, na Zona Sul do Rio. Todas são sócias do negócio. “É importante terem esse senso de propriedade”, diz Gandelman. Grande parte das startups cria primeiro um serviço, para só depois ganhar dinheiro com ele. A Teckler já surge com um modelo de receita e US$ 3 milhões em caixa, que vieram do bolso dos sócios, para sustentá-la no primeiro ano. As metas são ambiciosas: faturar US$ 35 milhões por ano em 2015 e, algum dia, estar entre os 100 maiores sites do mundo. É cedo para dizer se compartilhar o faturamento será suficiente para a Teckler conquistar seu espaço. Gandelman aposta desde já que sim: “A batalha é dura, mas factível. Nem penso em voltar a ser executivo”.
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